Refletindo a alma do agreste, Ivani mistura entusiasmo e mercadorias, utilizando a alegria como o ingrediente principal para impulsionar as vendas e humanizar o comércio popular da cidade.
Conheci Ivani Brasil antes mesmo de saber seu nome. Ela era aquela figura magnética em frente às lojas, com roupas decoradas, enfeitadas e um microfone que parecia uma extensão de sua própria voz. Entre os berros alegres anunciando produtos e a coreografia de estripulias quase infantis, improvisando no meio do trânsito, ela fazia a alegria acontecer onde antes só havia pressa, avexame e calor.
Icônica, Ivani é o ponto de cor que fura a rotina de Santa Cruz do Capibaribe no agreste pernambucano, a exemplo de outro nome gigante na cidade: o palhaço Pitombinha! Ela atrai olhares divertindo a todos com a beleza humana que só se alcança na mais pura simplicidade.
Raízes de afeto e o sangue do coração
A história dessa mulher, que hoje é “Santa-cruzense por direito”, começa com um gesto de amor profundo. Nascida em Canapi, Alagoas, foi adotada ainda pequena e levada para São Paulo, antes de criar raízes definitivas em Pernambuco. Ivani fala de seus pais adotivos com uma reverência que emociona:
“Eles me deram nome, sobrenome, me deram o estudo, tudo o que eu tenho de bom em mim foi essa família”.
Mesmo sabendo desde cedo de sua origem, ela nunca sentiu o peso do rótulo de “adotada” como algo negativo. Pelo contrário, transformou isso em orgulho.
“Eu sou do coração, mas tenho certeza que o meu sangue/deles já está em mim pelo amor que eu senti”.
Essa base sólida de carinho foi o que a permitiu, anos mais tarde, enfrentar as dificuldades da vida com o sorriso que hoje é sua marca registrada.
A reinvenção no poste da esperança
A trajetória de Ivani no comércio local ganhou um capítulo decisivo durante um dos momentos mais difíceis da humanidade: a pandemia. Após perder os pais e precisar deixar o emprego formal para cuidar deles no hospital, ela se viu como vendedora ambulante. Foi em frente à Caixa Econômica, vendendo máscaras em um poste, que Ivani “deu o boom”.
Ali, vulnerável e exposta, ela sentiu a proteção divina e a necessidade de levar leveza a quem estava com medo.
“Deus estava todos os anos da pandemia naquele poste… eu ficava muito vulnerável a todo mundo que eu atendia”.
Mesmo após sofrer o baque de ter seu carro roubado com todas as mercadorias, ela não recuou. Colocou uma fantasia, pegou as máscaras na mão e foi conquistar o comércio de porta em porta.
O sorriso como ferramenta de trabalho
Hoje, o trabalho de Ivani Brasil é fundamental para o comercio de Santa Cruz do Capibaribe. Em uma cidade que respira trabalho e produção têxtil, ela é o respiro necessário, puro estado de arte imbricado no sentir laboral de uma cidade trabalhadeira por demais. Seja em cima de carros de som ou nos corredores das lojas, seu objetivo é quebrar o gelo e renovar as energias de quem trabalha, e de quem compra.
“Meu dinheiro é feito de alegria, onde eu vou, eu levo o meu melhor”.
Para além das câmeras e dos microfones, Ivani ainda mantém o ofício de cabeleireira a domicílio, algo que ela descreve como sua forma de recarregar as próprias baterias.
“O cabelo me recarrega. Me faz lembrar que eu tenho um dom que eu amo”.
Ivani Brasil não é apenas uma divulgadora; ela é uma artista da sobrevivência e da empatia, provando que a cultura e o comércio podem — e devem — caminhar de mãos dadas com o otimismo.
Reportagem: @rodolfo.blog
Fotografia: @daianetrabalhando
Imagens: @ftdavisjofre
Maquiagem e cabelo: @renata.souzastudio
Apoio: ADEC @adec.scc






