“Esse negócio de moda autoral não funciona por aqui”

Mas quem será que teve a coragem de dizer uma coisa dessas? Pois bem: disse sim. Cidade pequena, né, mores? A fofoca chega. Mas, para além dos venenos naturais e previsíveis do ser humano, eu preciso reafirmar que sim, moda autoral funciona por aqui.

Reafirmar é defender e acompanhar o mesmo movimento cultural forte e potente que a nova geração de fazedores e fazedoras da cultura santa-cruzense e do agreste tem feito. Não tolerarei carregar incômodos alheios. E vou continuar somando com os meus e com as minhas, para que possamos, ao nosso tempo e ao nosso modo, reagir, devolver, refutar e reafirmar: viver.

Acho tão chato viver em redes sociais nesse “lambe-lambe” de egos e intrigas, mas agora sinto que é impossível adiar algumas disputas, algumas contra-argumentações. Porque o coletivo também é dialógico e, por isso, não pode ser feito somente de uma fala branca posando de analista de moda e negócios na terra em que eu vivo suando o rego para fazer as plantas se moverem (sem sentido figurado) de lugar.


Adendos feitos, bora lá: SIM, faz muito sentido pensar em criar uma vitrine de moda autoral no lugar que nasceu economicamente da artesania da Sulanca e se tornou o que é hoje: um território industrial de roupas, cheio de virtudes e questões em aberto.

Foto: Daiane Maiara – Coleção Até Rasgar o Peito – Analú Araújo – Modelo: Anyky

O Agreste Mostra Moda está dando um passo atrás, isso mesmo, um passo atrás para, somente depois, darmos outros passos à frente. Talvez até passos laterais, profundos, ao céu, bidirecional. a frente nem sempre é progresso, tá ai o Rio Capibaribe de prova todo fudido. Isso significa que a autoralidade, a criatividade como principal insumo da indústria, precisa ser colocada em evidência, e isso é muito anterior à industrialização.

O que nós fazemos, por enquanto, é só confecção; moda mesmo, nós ainda estamos começando a fazer. É preciso, sim, considerar os atributos estéticos e funcionais do design que se preocupa com o branding, o marketing e o faturamento. Óbvio. Mas eu vou devolver na moeda cristã: ‘nem só de pão vive o homem’ e, muito menos, a mulher.

É aí que o Agreste Mostra Moda se coloca, no interesse da brecha, da falta, do que está doendo e sangrando. É muito fácil arrasar nas vendas de um vestido de R$ 100,00. Quero ver fazer-se entender ou confundir, arriscar dizer o que rasga o nosso peito em dores e amores, sentir repulsa ao se mostrar, sentir afeto ao se encolher, sentir medo de se expor e sangrar feliz ao se dissolver.

É disso que nós tanto precisamos como principal elemento gerador de moda e, depois, de vendas. Porque a moda é, antes de um catálogo, uma forma relacional de ser e existir no mundo. Além dos tecidos estão as imagens que nos formam e nos transformam. Pensar somente na função da venda nos faz esbarrar de novo no engodo falacioso de resultado, sempre de bolso cheio e alma vazia. Bom mesmo é alma plena e bolso cheio.

Quem só viu a passarela e não entendeu nada, quem não viu as pessoas encantadas no parque florestal com aquele dia rasgado de arte, os olhos brilhando, emocionados não entendeu do que se trata a moda.

Por isso é moda e também é negócios. Por isso faz sentido que seja agora. Por isso, rasgar o peito e abrir o mato cortando com delicadeza é necessário e criador de sentido.

Oito minutos de desfiles são pouco para dar conta do que rolou no Agreste Mostra Moda em 26 e 27 de julho. Foram ideias em ebulição, estilistas desfilando pela primeira vez, emoção, frio na barriga, rotas traçadas e depois rotas refeitas. Quem diz isso não sabe exatamente o que se passa na mente e, muito mais, no corpo de quem fez tudo isso acontecer nos bastidores.

É visceral, e eu não vou parar de defender esse espaço no meio do mato, essa claraboia que abrimos todos e todas juntas, diante de um olhar para o chão, para o sol e para o céu, e finalmente poder respirar. Viva o Agreste Mostra Moda. Viva a autoralidade, viva a assinatura em primeiro nome, viva quem fez e quem faz criar. Xô borocoxô!

  • imagem da capa desta matéria: Desfile Analú Araújo – foto: Daiane Maiara – Modelo: Gil Silva – 26 de julho de 2024 – Agreste Mostra Moda – Parque Florestal Fernando Silvestre da Silva

Sobre Rodolfo Alves

Sou publicitário que vivo criando conteúdos e ideias, fuçando novidades. Amo a comunicação e estou interessado pela moda no mundo: seja ela nas passarelas de grifes famosas ou nas feiras populares do Brasil.

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